Como eu coloquei no artigo passado se valeria a pena criar uma editora simplesmente para publicar seus livros, hoje eu vou falar um pouco a respeito do trabalho do editor.
Muita gente pensa que o editor leva uma vida glamorosa, buscando em parceria com os escritores para conseguir um produto sublime de arte, e que a maioria dos editores deve se orientar “pelos quatro Ps do Marketing: produto, preço, promoção e praça” e isso dará certo, que eles só lançarão coisas que gostam e que nunca terão problema nenhum com eventos e outros assuntos…
Eu até concordo que “não há espaço para o gosto pessoal” e que “as tendências ditam muitas das ações editoriais”. Como editor eu tenho que dizer que eu mesmo já publiquei livros que, apesar da qualidade, não eram do meu gosto pessoal. E isso é lógico, pois eu estava publicando não só pra mim, mas para outros tipos de leitor, também.
Isso, na realidade, não é muito diferente de o que venho falando desde minha primeira palestra ou bate-papos com escritores, quando apesar de colocar que “Sim! Ele deve escrever sobre o que gosta.” Também comento que ele deve se focar num público alvo e escrever para este público.
E como já afirmei mais de uma vez um editor deve, ou deveria, ser mais do que um simples comprador de best-sellers que não consegue perceber a necessidade de um mercado ou a possibilidade latente de um original.
E apesar de que o editor deve estar sempre atento aos detalhes do livro como a capa, a diagramação, o tipo de letra a ser usado e mesmo o acabamento do livro, se perder nesse tipo de detalhe e esquecer que o livro é um produto pode ser um perigo. Até porque o editor deve ter sempre em mente questões como:
Qual o público alvo?
Quais os produtos concorrentes e como foram de vendas?
Quais os números no exterior?
Em que linha do nosso catálogo entra?
Como está o autor nas redes sociais?
O quanto esperamos vender?
Essa questão de vendas, inclusive, é tão interessante que vale um estudo de caso. Há algum tempo tivemos um boom no mercado editorial de distopias, várias das quais foram adaptadas para o cinema, inclusive. Imagine então a posição de um editor. Tudo bem que aqui no Brasil a Rocco comprou os direitos tanto de Jogos Vorazes, como de Divergente, as duas principais franquias do gênero, ficando o Maze Runner com a V&R Editoras e O Doador de Memórias com a Arqueiro.
Será que todas tiveram o sucesso esperado?
Quer dizer, mesmo a série Divergente, no cinema, perdeu parte de sua força no final. Os dois demais então, nem vale a pena comentar. O mesmo se viu nas livrarias, em que havia pilhas e pilhas de dos títulos da Rocco e a presença dos demais foi apagada.
O que será que faltou?
Outro caso que eu gostaria de analisar é a de obras que caíram em domínio público. Aqui, temos desde clássicos da Ficção Científica, como O homem invisível (1897), A ilha do Dr. Moreau e A guerra dos mundos (1898), como O Pequeno Príncipe. Agora, por mais que poder publicar um clássico livremente, quando todos as editoras resolveram fazer o mesmo será que deu certo? Será que fãs compraram mais de um exemplar para montar uma coleção?
Creio que não, pois não muito tempo depois esses mesmos livros passaram a ser vendidos nas máquinas de livro do metrô a preço de banana.
Será que, em ambos os casos, os editores não pensaram no “público alvo”? Nos “produtos concorrentes e como foram de vendas”? Em quais foram “os números no exterior”? E pior: em “o quanto esperamos vender”? Porque qualquer um com meio cérebro poderia prever que os leitores não iriam começar a comprar versões diferentes de um livro infantil publicado originalmente em 1943 só porque o autor entrou em domínio público!
Quanto a questão de “Como está o autor nas redes sociais?” Não vou nem comentar, pois já discorri a respeito mais de uma vez, falando, inclusive da tendência que ainda existe de se comprar curtidas e criar uma imagem falsa de si mesmo nas redes sociais. Coisa que muitos editores ignoram.
Já vi editora comprar o direito de um autor que disse ter vendido cinco mil livros em uma editora pequena (vendeu 50), para ser lançado por uma média, cujo editor simplesmente não pensou que se ele realmente tivesse vendido esse valor, a editora que o lançou originalmente tem, por contrato, o direito de reedição, e que não abriria a mão tão fácil se o livro realmente tivesse vendido tão bem. Ou seja, caíram no conto do vigário!
Assim, eu gostaria de concluir com alguns questionamentos:
Será que estes “editores”, como nesse último exemplo ou quando eu comentei sobre a compra do Harry Potter, conseguiriam ser tão analíticos e eficientes se, ao invés de comprar um best-seller já com todas as respostas prontas, eles tivessem de pegar o original de um escritor desconhecido do zero e fazer dele um sucesso?
Será que eles conseguiriam apostar na primeira obra de uma autora como J.K. Rowling, por exemplo, mas não após estourar e virar um sucesso do cinema?
Ou será que a editora deles, como muitas antes da obra ser aceita pela Bloomsburry, recusariam, como fazem com os originais de inúmeros desconhecidos que diariamente chegam às editoras sem dados como “números no exterior” ou quantos se espera vender?
E finalmente, quantos profissionais no Brasil realmente podem se dizer editores?