CUIDADO COM CLICHÊS QUE SE MASCARAM COMO TÉCNICAS MILAGROSAS! Parte 2 de 2

Semana passada eu estava comentando a respeito de uma conversa que tive com outros profissionais do mercado e de como ela descambou depois de algum tempo numa discussão sobre como algumas ditas técnicas que garantiam “prender” o leitor na verdade não passavam de clichês, ou fabricas de clichês nas mãos de escritores com menos experiência.

Após falarmos das receitas de Jornada do Herói, da famigerada Contagem Regressiva e dos Ganchos ou Cliffhangers, foi a vez de se lembrarem dos Pontos de Virada, ou Plot Points. Vindos da indústria cinematográfica, essa receita comenta que cada história deve ter ao menos dois pontos de virada, de modo a não ficarem chatas. A história começa com a quebra do cotidiano dos protagonistas que começam a tentar resolver o problema para retornar o status quo.
Dividindo o primeiro terço da trama do segundo, eles conseguem algum sucesso e a história começa a virar, até que, dividindo o segundo e o terceiro terço da história, acontece um novo Plot Point que novamente bota-os numa fria até que eles possam resolver o problema de maneira definitiva. Essa, na verdade, nada mais é do que a estrutura de três atos do teatro grego, que já comentamos em textos e em vídeos.
O problema aqui é que se você fizer isso sempre e o leitor conseguir descobrir a fórmula, a técnica se volta contra você. Quer dizer, sabendo que sempre haverá um Ponto de Virada entre primeiro e o segundo e entre este e o terceiro terços da história, você sempre chegará a conclusão de que este incidente ou evento que reverte a ação e a joga em outra direção na verdade é uma ilusão, pois o primeiro Plot Point sempre levará os protagonistas para o lado errado e que eles só encontraram a resposta no segundo Ponto de Virada a história.
É como assistir a uma mágica que você sabe como acontecerá. O mágico mostra que a cartola está vazia, mas tira um pombo que está guardado um fundo falso. Onde está a surpresa? Qual é a graça disso?
Inclusive, se analisarmos, a maioria dos seriados de policiais trabalham exatamente essa estrutura de três atos. Os protagonistas estão trabalhando quando acontece um crime. Primeiro plot point. Eles começam a investigar e descobrem diversas pistas promissoras ou descobrem um suspeito. Se o programa tem uma hora de duração, você sabe que a pista ou o suspeito não darão em nada, pois nem chegamos à metade. Eles então descobrem mais evidências e um novo suspeito (ou essas evidências terminam por indicar uma falha no álibi do primeiro suspeito). Eles investigam essas novas provas, vai ter um pouco de ação, real ou psicológica, fim de caso.

Inclusive, foi como um livro que li (um dos piores, já comentei dele em um vídeo). O autor deve ter lido em algum lugar que a melhor maneira de prender a atenção do leitor desde início da história é começar a contá-la do meio. Daí ele fez o que? Simplesmente pegou um capítulo do meio e jogou no começo. Sem explicações, sem ligação com nada a seguir, simplesmente colocou ali. Depois continuando a história de onde ela cronologicamente começava. Em me recordo que li aquela sequência de ação achando que ela continuaria e que ele usaria uma técnica semelhante à do gancho, que é mesclar a ação com lembranças, de modo que no fim das lembranças, normalmente no penúltimo capítulo o leitor descobre o porquê de a história ter começado, só para ler como ela terminará no capítulo seguinte, mas não. Ele simplesmente jogou aquele capítulo no começo, achando que prender a atenção do leitor no primeiro capítulo, mas perdê-la no segundo ou no terceiro capítulos não faria o livro ser um fracasso!

Assim que eu contei a história outra pessoa lembrou que uma das “técnicas” infalíveis apresentadas na discussão era a linearidade, pois segundo quem a defendia uma obra linear atrai mais os leitores. Segundo quem defendia essa dica, que incrivelmente ia contra outras apresentadas, como Cliffhangers (novamente eu já cheguei a comentar a respeito) ou mesmo intermediar a ação com memórias explicativas, ou mesclar a ação ou reação do protagonista com a ação ou reação do antagonista, mostrando ao mesmo tempo dois pontos de vista diferentes, ou como um jogo de xadrez. Ou seja, as técnicas são boas. Mas como eu já disse, devem ser usadas com cuidado. Pois se o leito identifica, elas perdem a metade da graça.

A última técnica apresentada, e é interessante que eu mesmo a use aqui (o que é normal, tendo em vista que isso não é uma ficção), é a de criar Interatividade com o leitor. Como? Fazendo com que narrador dialogue com o leitor. Isso, segundo o defensor dessa técnica maravilhosa, criaria uma espécie intimidade, deixando assim o leitor à vontade com o texto e querendo continuar.

E isso é uma colocação que faço para você leitor, de modo a criar intimidade, sacou? O que segura uma história são personagens bem construídos, uma trama bem fundamenta e apresentada de maneira não óbvia, de modo a manter o leitor curioso. Cenas bem feitas e diálogos lógicos.
O resto é “mambo-jambo” como dizem em inglês. Uma bobagem sem sentido. Especialmente se, como eu já coloquei na conclusão da primeira parte do artigo, o escritor tentar usar a técnica sem dominá-la devidamente.

Um exemplo disso na vida real é uma arma de fogo na mão de alguém que não sabe usar. Praticamente todos os especialistas de segurança concordam que ela termina sendo um perigo mais para que a possua do que para seu eventual antagonista, que termina tomando a arma e matando o dono. Então, se você não que isso aconteça com seu livro, com ele se voltando contra você, aprenda a usar essas técnicas milagrosas antes de tentar colocá-las no papel.

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