O filme começa como deveria. Não vou dizer interessante, mas fazendo uma apresentação da história e do que está acontecendo no universo da qual ela faz parte.
Eles falam do império, dão uma conotação maternal ao mesmo, mas mostram que, com a morte do rei e da rainha as coisas pioraram. E digo pioraram, pois se já existem rebeldes, e eles dão a entender que sim, o que, inclusive, dá a ideia de uma relação com Star Wars, a situação já deveria estar ruim, mas que com a morte dos líderes, ela piorou.
Ao mesmo tempo você vê a apresentação da protagonista, Kora, e o planeta em que ela vive, mostrando uma comunidade dele e como eles vivem. Aqui a base é claramente uma cultura pagã, como à nórdica ou a celta, em que existe pouca tecnologia e ela é apresentada como uma forasteira que ainda tenta se adaptar àquela realidade, embora diga não á merecê-la, por ser uma “filha da guerra”, que não entende o amor.
Eu acho interessante essa consideração, especialmente porque dizem que o filme demorou 30 anos para “sair do papel”, pois ela, a colocação, é exatamente de alguém que não conhece o espirito do guerreiro e nem pesquisou a respeito.
Isso, inclusive, é muito comum em algumas produções mais atuais na qual é apresentado um ponto de vista maniqueísta segundo o qual um dos lados sabe que é inerentemente mau.
E eu digo isso, pois como praticante de artes marciais uma das coisas que eu aprendi que é o guerreiro não luta por ódio ou para destruir o inimigo como se esse fosse seu objetivo. Ele luta sim, pois ama e quer manter a segurança das pessoas que está protegendo ao ir para a guerra.
De qualquer modo, a nave do império que surgiu no início, apresentada como um dreadnaught, parte de uma força para acabar com os rebeldes, liderada pelo comandante Atticus, mão direita do tirano Balissarius e, novidade nenhuma, é o mais cruel, surge nos céus do planeta e logo ficamos sabendo que o que o mundo mãe quer é sempre tudo de todos.
É incrível como esses vilões maniqueístas são tão bidimensionais que são incapazes de entender verdades básicas como o ditado “você pega mais moscas com mel do que vinagre.” E o mais interessante é que se isso é real na relação deles com a comunidade, o mesmo se dá entre os próprios soldados, que foram deixados para trás, que são incapazes sequer de mostrar disciplina.
Isso pode soar como um detalhe, mais dois erros que eu vi nessa parte, e eu já comentei a respeito em vídeos sobre fantasia, e aqui coloco fantasia, pois claramente estamos falando de uma história que nada tem a ver com a terra.
O primeiro é o uso do termo “semana” como algo comum, como se a “semana” existisse em todo universo. Uma semana são sete dias, em nosso padrão. Um dia tem 24 horas, na Terra. Assim como um ano 365 ou 366 dias.
Mas… o dia ou ano de cada planeta ou lua não é diferente? Isso é verdade mesmo no sistema solar, imagine então se estamos falando de um planeta distante. Será então que um dia ou uma semana são a mesma coisa para todo o Império?
O segundo é quando o robô, que como um humano senta para descansar e fala de sua princesa em latim. Será que eles são descendentes dos romanos?
Falando do robô, inclusive, essa tentativa de humanização do robô ao mesmo tempo em que se desumaniza os soldados, ou seja, a representação do vilão é tão óbvia que chega a ser clichê. Sem contar que depois disso o robô praticamente some na história. Mas marque minhas palavras, ele vai aparecer e ser importante para os mocinhos no segundo filme.
Aí temos a primeira luta, após a protagonista evidentemente querer fugir, apresentando a clássica recusa do chamado, na Jornada do Herói, mas de uma maneira tão óbvia que chega a parecer uma receita de bolo.
E a luta, como todas no filme, pode esperar que você até cansar, é em câmera lenta. O que, contudo, no início parece interessante, marque minhas palavras, termina se tornando enfadonho.
E após os cidadãos aparecerem, evidentemente que depois de toda ação haver acontecido, pois o estereótipo de qualquer cidadão é ser um covarde, lá sai a protagonista, junto com seu primeiro “aliado”, para uma cidade portuária atrás de um general rebelde para salvar a comunidade.
Aí eu pensei “um momento. Se tem uma cidade portuária, existem outras comunidades no planeta, talvez um ou mais governos. Então o império, ao invés de agir como tal, está agindo, na realidade, como a máfia. ‘Agora vocês vão nos pagar senão nós destruímos vocês.’ Muito lógico!”
Mais ilógico, quando em outro planeta, eles simples simplesmente destroem o planeta.
De qualquer modo, na ida à cidade portuária, que evidentemente nem ficou sabendo da chegada de um imenso dreadnaught imperial, nossa protagonista, que apesar de estar na comunidade a se bem me lembro três estações, só agora conta a história dela, mostrando sua jornada de redenção. E olha que o filme está só no começo.
A chegada na cidade portuária começa a segunda parte do filme. Lá, após uma sequência típica de bar, só faltou a musiquinha de Star Wars, eles evidentemente encontram um piloto que não só os levará onde precisam ir (sem falar de pagamento). E ele ainda os leva para um planeta onde conhece um cara que poderá ajudá-los (assim, do nada) e o fazendeiro que tem ele como escravo logo aposta contra os protagonistas, que, como o Harry Potter, esse novo coprotagonista não iria domar um grifo. Alguém tem alguma dúvida do que acontecerá a seguir?
O filme, inclusive, já está começando a parecer começo de aventura de RPG, quando o grupo começa a se formar.
Lembrando. Os dois protagonistas, Kora e seu aliado, o fazendeiro Gunnar, tem dois planos. Achar os rebeldes para quem Gunnar havia vendido o excedente da produção e encontrar o general Titus e suas tropas para ajuda-los.
Mesmo assim antes disso eles novamente seguem o que o piloto diz e vão para um planeta minerador atrás de mais aventureiros.
Lá, após mais lutas em câmera lenta e conversas sobre moral para provar que o integrante é digno, o personagem vai com eles, porque efetivamente ninguém tem uma vida, um trabalho nem nada.
Finalmente chegam à arena com nome romano de um planeta, Castor e Pollux, nomes básicos, pois o diretor deve ter como público alvo aquela pessoa que sabe e acha a coincidência interessante. Porque para quem sabe um pouco mais ela soa como se quem escreveu o roteiro procurou os nomes na Wikipédia.
De qualquer modo lá eles encontram o general Titus, antes apresentado como praticamente um mito com um exército, mas que já está sem exército, bêbado e acabado. Após uma conversa sobre redenção e vingança é evidente que ele aceita. Por que não iria, não é verdade?
Do outro lado novamente somos apresentados aos vilões, que, numa trama infantilmente maniqueísta reitera que os vilões são maus simplesmente por serem maus.
A trama retorna ao grupo dos mocinhos, que segue para o planeta do Rei Levítica (referência bíblica, como se encher de referências fosse melhorar a história) e evidentemente encontra os rebeldes. Finalmente nós temos uma resposta real e lógica na história e a líder dos rebeldes não aceita ir com o grupo. Mesmo assim seu irmão e um pequeno grupo de rebeldes, após um discurso sobre responsabilidade, é claro, segue com os aventureiros.
Antes de seguirem para o planeta de Kora e Gunnar, no entanto, o piloto diz que precisa entregar sua carga antes de seguir com eles. Numa reviravolta final, ele trai e captura o grupo, mas Gunnar, apesar de sua covardia, consegue soltar Kora, enquanto os imperiais e seu comandante nada fazem e segue mais luta em câmera lenta na qual com praticamente nenhuma perda importante, os mocinhos ganham.
No fim, após uma reviravolta que eu não vou falar, pois já dei muito spoiler, os seis terminam com a nave, e o filme pela metade, pois é a primeira parte e nem terminar um arco o diretor consegue.
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