O FUTURO DO MERCADO… PARA ESCRITORES E EDITORAS

Esta semana eu estava assistindo a um vídeo de uma Youtuber a respeito de livros que seriam importantes em 2024 e me lembrei de uma palestra de um editor que assisti anos atras. Isso, pois apesar de falar que é importante dar apoio aos livros nacionais, a Youtuber só citou livros internacionais, numa ladainha semelhante à do editor, que é a mesma repetida há anos.

Como sempre, para explicar o futuro, ou um dos possíveis futuros do mercado, a primeira coisa que devemos fazer é analisar a situação desde seu início, que no caso passa a ser relevante há uns vinte ou vinte e cinco anos, no inicio do século XXI, quando originalmente surgiram os e-books, só para logo serem esquecidos… ao menos até há alguns anos, quando foram criadas não só as plataformas de leitura digital, como também os formatos mais avançados de publicação digital.

Quem está no mercado há algum tempo, como eu, se lembrará do enorme receio que a mesma trouxe ao mercado, que ao menos por algum tempo temeu que com a chegada dos e-books os livros físicos, assim como as livrarias, desapareceriam.
Mesmo as editoras se desesperaram, pois perceberam que num mundo em que o escritor poderia se vender sozinho, elas perderiam a razão de ser.

Eu me recordo que eu mesmo comentei que caso houvesse uma migração para o digital, algo que eu não via acontecendo, ao menos no Brasil a curto ou médio prazo, as editoras se tornariam como grifes, nas quais o leitor poderia confiar no caso de uma leitura de qualidade de um gênero ou outro.
O interessante é que já existia um movimento para isso, mas uma pesquisa que eu mesmo cheguei a comentar aqui, o leitor ainda nem chegou a perceber isso, não dando à mínima se o livro sai por este ou por aquele selo desta ou daquela editora, algo que, segundo especialistas, vale mais para a própria editora e para o escritor do que cliente final.

Com o desenvolvimento da tecnologia, entretanto, além dos e-books, surgiram também as redes sociais, como o Facebook, o Instragram e mais recentemente o TikTok, assim como plataformas de publicação online, como o KDP da Amazon e o Wattpad, sem contar os já conhecidos blogs, em que escritores há muito não só apresentam suas obras, como mantinham aberto um canal de comunicação com seu público.

Outras ferramentas de divulgação, como o Youtube, também se popularizaram. Com isso, e vendo que o futuro a curto prazo não seria tão obscuro como ele estava sendo pintado, ou ainda narrado, ao menos para editoras e livrarias (fora a Cultura e a Saraiva), a situação retornou a seu normal, piorando quando, num dos modismos usados para salvar finanças, começou-se a lançar livros de youtubers, que por já possuírem uma legião de fãs, se tornaram queridinhos das editoras.

Para o escritor que busca publicar, no entanto, a situação piorou, pois se antes ele deveria escrever e só depois de publicado ajudar a editora com a divulgação e o marketing de sua obra, agora ele precisa, e isso não foi algo que só ouvi nessa palestra, mas de muita gente do meio editorial, antes mesmo de ser publicado ou havendo publicado independente, já ter uma plataforma de divulgação, um marketing, uma legião de fãs, como os youtubers.

O que todos parecem esquecer é que além da maioria dos livros de youtubers ter sido escrita por ghostwriters, eles mesmos não precisam disso. Por que um Youtuber famoso que ganha, ou ganhava até a monetização do Youtube, mais de 90 mil dólares por mês, muito mais do que a maioria dos escritores, na verdade também do que os editores que os publicam, ganham num ano, perderia tempo escrevendo, processo que toma muito mais tempo do que gravar um vídeo?

Sabe por que eu estou dizendo isso?
Porque outro ponto comentado em relação às plataformas de publicação online na palestra, que segundo os editores são essenciais para que o escritor se promova, é a volta da Literatura de Folhetim, como era conhecida no Brasil no final do século XIX, início do século XX nas quais as histórias, como aconteceu nas Pulp Fictions dos EUA e nas Penny Dreadfuls inglesas, eram apresentadas em pequenos capítulos.
Foram destas publicações, inclusive, que saíram grandes autores, como José de Alencar, Machado de Assis e Lima Barreto no Brasil, e Edgar Rice Burroughs, criador de Tarzan e John Carter, H.P. Lovecraft e sua saga de Cthullhu e Ray Bradbury, só para citar os mais conhecidos, a maioria dos quais teve suas obras publicadas primeiro em folhetins para depois serem editadas em livros.

Agora, o que acontecerá com as editoras quando, assim como aconteceu com o Youtube, que ao monetizar seus vídeos se tornou o ganha-pão de muitos produtores de conteúdo, plataformas como Wattpad perceberem que também podem fazer isso e começarem a colocar anúncios e monetizar leituras?

Eu já comentei a respeito não faz muito tempo, quando apresentei que algumas obras têm mais de um milhão de leituras e mais de cem mil curtidas. Imagine se o Wattpad começar a fazer divulgação e marketing como Youtube faz e pagar, por exemplo, um ou dois centavos por leitura. Uma obra que tenha cem mil leituras poderá ganhar algo entre dez ou vinte mil reais. Novamente temos uma quantia muito maior do muito escritor recebe de DA por seu livro publicado.

Evidente que uma vez mais não acabará com o livro físico, mas não ache que isso não possa acontecer num futuro próximo, pois se não só editoras, mas também produtoras de TV estão procurando obras no Wattpad (só no mercado americano ainda), os criadores da plataforma já devem estar considerando uma maneira de monetizá-la. E uma vez mais as editoras terão de correr atrás da nova modinha do mercado editorial ou gastar comprando direitos de best-sellers internacionais exatamente porque não querem fazer a divulgação e o marketing que as editoras lá fora fazem.

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