Terminada a leitura de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, vamos para a resenha. Como eu gostei muito tanto dos filmes como dos livros, eu digo “filmes” e “livros” na ordem, porque assisti Jogos Vorazes antes de ler os livros (ao menos o primeiro livro), quando fiquei sabendo da adaptação de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, resolvi ler o livro. E (spoiler alert) pela leitura já posso dizer que não pretendo assistir ao filme.
De qualquer modo, para quem não conhece o livro apresenta a juventude do presidente Coriolanus Snow, o antagonista de Katniss Everdeen na trilogia original. E como já dá para ver pela brincadeira com o “spoiler”, ao contrário da série original, no qual a história e interessante e o leitor consegue sentir empatia (ou raiva) por muitos personagens, mesmo coadjuvantes, aqui a história e fraca e não dá para sentir absolutamente nada por ninguém.
O problema que eu vejo foi que tudo bem que você está lendo sobre um protagonista que se tornará um vilão, mesmo assim ele poderia ter alguma qualidade, pois não dá para sentir empatia nenhuma por Coriolanus Snow.
Quer dizer, ele poderia ter qualidades, além de defeitos é claro. Podia tentar se erguer e cair, buscar ser o herói, mas exceder suas forças no Outro Mundo (falando da Jornada do Herói) e se corromper ao ficar preso no “Inferno”, mas não é o que acontece.
Já começa que ele veio uma família que era rica, não é mais, mas que teima em não aceitar ou querer mostrar isso. Eles então, apesar de viverem à mingua, ficam mantendo a pose e orgulhosamente repetindo (e fazem isso tanto que chega a cansar) que “a neve (snow) cai por cima de tudo”. Além disso ele é egocêntrico e covarde.
Depois temos Sejanus, o colega do qual ele não gosta (porque é mais rico do que ele e como veio dos distritos, ele acha inferior). O caso aqui é o inverso. Como Sejanus veio do Distrito Dois, ele se sente como um peixe fora-d’água na Capital, tendo vergonha do que é e achando que o dinheiro que sua família tem é fonte de corrupção (lembrando aqueles socialistas de IPhone)
E finalmente Lucy Gray, completando o trio. Para mim ela é “sem sal e sem pimenta”. O grupo musical da qual ela faz parte, inclusive, me pareceu tão irrelevante que eu passei em branco pelas músicas (que achei chatas) e nem fiz questão de lembrar os nomes de cada um. Foi zero empatia.
Não deu, na realidade, para sentir empatia com nenhum personagem, o que, inclusive, deixou a leitura complicada, pois eu não sentia curiosidade com nada do que iria acontecer com ninguém ali. Nem com o imaturo diretor do colégio que Coriolanus estuda, Casca Higbotton; sua irmã, Trigris Snow; a vilanesca Dra. Volumnia Gaul, uma das professoras do colégio que parece ser má só porque ela é (eu sei que psicopatas existem, mas imagine um professor psicopata. Não dá, não é verdade?); os colegas dele; os demais tributos; a avó e os pais de Sejanus. Todos mais pareciam sombras bidimensionais do que efetivamente seres humanos.
Sem contar que tanto os personagens como o narrador tinham a maldita mania de ficar chamando todos, menos Sejanus, pelos dois nomes, o que fazia com que a leitura parecesse aquelas novelas mexicanas. Eu sei que é um detalhe, mas foi mais um que me fez desgostar no livro.
Sobre a história, ela se divide em três partes. A primeira antes dos jogos, quando os alunos ficam sabendo que pela primeira vez haverão mentores para os tributos e que eles seriam escolhidos para essa função.
Para variar, quando Coriolanus descobre que será mentor da tributo do Distrito 12, não dos três primeiros, ele fica humilhado, porque como alguém da classe dele receberia um distrito de um distrito tão inferior?! Realmente não dá para sentir empatia para alguém assim!
De qualquer modo é nessa primeira parte da história que ficamos conhecendo os demais personagens, principais e coadjuvantes, e são todos desprezíveis (no aspecto de só se ter desprezo por eles, não que não sejam importantes), mesquinhos, chatos.
Eu até entendo que na vida real terminamos encontrando na vida muita gente como os três protagonistas ou demais personagens do livro. Mas nem por isso nós precisamos encontra-los quando estamos lendo, não é verdade?
De qualquer modo, a segunda parte do livro apresenta os Jogos Vorazes em si. O problema aqui é que para quem leu a trilogia original ou assistiu aos filmes e lembra da tecnologia, de todas as sequências de ação (inclusive, aqui vale lembrar que, além de escritora, Suzanne Collins é roteirista da Nickelodeon, de modo que, na trilogia original, dava para quase ver o que estava acontecendo na leitura), de todo o heroísmo, mesmo dos personagens coadjuvantes, que fazia com que o leitor criasse empatia com diversos deles (mesmo dos “carreiristas”, que faziam os papeis de vilão, que gostávamos de odiar). Aqui eles são jogados num estádio velho, ficam escondidos a maior parte do tempo e nada acontece, com a história se arrastando como uma lesma
Finalmente, a terceira parte mostra o que acontece após os Jogos Vorazes. Não só mostrando o resultado deles, com os três protagonistas sendo punidos pelos seus atos na parte anterior da história e (spoiler alert), conseguindo dar a volta por cima (evidentemente não devido a seus esforços ou méritos).
E novamente, aqui você não vê um protagonista que se corrompe por tentar se superar, não consegue e termina se tornando ressentido por se perder no abismo (pensando na frase de Nietzsche em Além do bem e do mal “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”). Nem sequer, na realidade, um protagonista que é grato pelo que recebe no final, mas simplesmente alguém egocêntrico e com sorte (que novamente, vemos muito na vida real, mas que nem por isso queremos ver num livro).
Inclusive, a impressão que se tem é que ele se tornará presidente (porque isso não acontece durante a história, embora o egocêntrico Coriolanus fique sonhando acordado com isso), por intervenção divina (da autora), pois “a neve (snow), cai sobre tudo” (você lê isso tanto na história que chega a dar raiva!)
Em suma, eu achei a história fraca e os personagens todos risíveis, de modo que não recomendo a leitura, especialmente para quem leu a trilogia anterior, de modo que não recomendo.
Uma colocação final. Não sei se é um caso de “lenda urbana”, mas cheguei a ouvir que esse livro explicaria a razão de o presidente Snow ter um hálito de rosa por comer suas pétalas, mas não explica. Então, se você está indo atrás desse livro por essa razão, nem perca seu tempo!