SERÁ QUE ADAPTAÇÕES AJUDAM MESMO A LITERATURA? Parte 1 de 2

Esta semana eu dei uma passada numa livraria Leitura e, dando uma olhada na lista que elas apresentavam como “best-sellers”, eu vi algumas adaptações, o que me levou a questionar “será que essas adaptações realmente estão ajudando a literatura?”

Você pode responder que “evidentemente”! Que adaptações para o cinema chamam atenção do grande público e que isso vende livros. O ponto, na verdade dois pontos são:

– Sim! O cinema realmente aumenta a venda de livros, mas será que ele realmente cria leitores? Quer dizer, será que todas as pessoas que assistiram O Senhor dos Anéis, O Código Da Vinci ou a série Guerra dos Tronos e compraram os livros efetivamente leram ou lerão os livros? Ou só fizeram isso para parecerem mais cultos do que realmente são?

– E finalmente: Quem está falando de adaptação de literatura para o cinema? Eu estou falando exatamente do inverso. Da adaptação de quadrinhos, jogos e mesmo filmes para a literatura!

Sim, porque apesar de algo nem tão conhecido aqui no Brasil. Eu mesmo critiquei duramente um artigo de jornal que comentava sobre essa “novidade” há alguns anos, essa não é uma tendência nova. Desde meados dos anos ’80 que nos Estados Unidos as editoras lá fora descobriram o potencial das adaptações. Como está acontecendo hoje com adaptações de quadrinhos, como Guerra Civil (que teve adaptação no cinema) e jogos de computador, como Assassin’s Creed (que também será adaptado para o cinema) e World of Warcraft, na época se começou a lançar não só adaptações, mas spin-offs (histórias derivadas de uma história original) de filmes como Star Wars, séries como Star Trek e Doctor Who, e jogos de RPG como AD&D e Shadowrun (para quem não conhece o primeiro é um jogo de Fantasia Medieval, enquanto o último de Cyberpunk, ambos lançados inclusive em português).

A questão, e eu já comentei a respeito anteriormente aqui no Aliteração, em palestras e cursos de escrita, é que com o desenvolvimento da tecnologia, escrever tornou-se muito mais simples, de modo que como eu mesmo já ouvi durante um evento com autores que buscavam se profissionalizar: “qualquer um pode escrever”. E com a facilidade de contato que surgiu com a internet, qualquer pessoa acha que pode escrever um fanfic (história escrita por um fã), enviar para a editora que detém os direitos do personagem ou universo que gosta e do nada chegar ao estrelato.

Agora, se com um computador praticamente em todas as casas (quando não mais de um), qualquer pessoa realmente possa escrever. Escrever profissionalmente é algo completamente diferente. Como acontecia nos anos ’80, as editoras tendem a chamar grandes nomes que agreguem ao universo, como escritores que ganharam prêmios literários ou que já têm seus nomes consolidados, como Neil Gaiman, que inclusive já escreveu um spin-off do já citado Doctor Who.

Como eu já comentei antes, se mesmo editoras abertas a receber originais recusam 95% dos manuscritos que chegam a elas por não considerarem que eles estejam prontos, imagine uma que não está procurando? O material vai diretamente para o lixo!

Vamos ser realistas! Não é porque uma produtora contrata um grande nome para uma adaptação como Guerra Civil, da Marvel, ou para spin-offs como a Disney tem feito com Star Wars, que uma editora aceitará um fanfic escrito por um desconhecido qualquer.

Pés no chão, galera!

É como acontece com os bebes: antes de andar você tem de aprender a engatinhar. Como eu mesmo comentei quando ouvi um escritor amador falar:

“Nós temos de mostrar as editoras que o brasileiro sabe escrever”, achar que só por saber escrever você pode escrever e publicar um livro é como eu bater na porta de uma equipe de Formula 1 como a Willians, apresentar minha carteira de motorista como um currículo e dizer que quero me tornar um piloto profissional.

Escrever profissionalmente exige treino, exige estudo, e não é porque escreveu uma simples fanfic que você se tornou um escritor profissional.

Isso, inclusive, lembra um caso apresentado no livro Oficina de Escritores – um manual para a arte da ficção (de Steven Koch, lançado no Brasil em 2008 pela WMF Martins Fontes) em que um escritor profissional responde a um amigo médico que comenta que quando se aposentar começará a escrever livros, que ele também, depois de se aposentar começará a praticar medicina.

Ou seja, não é porque escreveu um original, ou que pagou para publicar seu livro que você automaticamente transformou-se em escritor. Para isso é necessário se construir uma carreira!

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