CURTINDO A VIDA ADOIDADO E A LITERATURA…

Como essa semana eu resolvi reassistir ao filme Curtindo a Vida Adoidado, no original Ferris Bueller’s Day Off, resolvi usá-lo como base para uma análise. Especialmente porque meu DVD tem o making off e o casting call e como tem muita gente falando a respeito da interação de mídias, eu resolvi comentar a respeito de alguns comentários para comparar, ou ainda diferenciar as mídias.

Um dos pontos mais críticos que eu vejo como escritor foi sobre a colocação de “que as melhores coisas vêm sem rodeios”, comentário feito, pois segundo o John Hughes, que escreveu o roteiro e dirigiu o filme, ele se trancou num quarto e terminou o mesmo em seis dias. E qualquer escritor sabe que é praticamente impossível se escrever um livro (de qualidade, especialmente), neste tempo. Houve, inclusive, excelentes obras que demoraram anos para ser terminadas, o que quebra por completo o dito de “que as melhores coisas vêm sem rodeios”.
Na verdade, eu vou mais fundo, pois no making off e no casting call, e isso quem tiver o DVD com os extras poderá ver, segundo diversos atores houveram cenas que não estavam prontas e que eles tiveram de improvisar ao filmá-las. Ou seja, os seis dias não serviram para que o roteiro, que por sinal é muito mais simples do um livro estivesse efetivamente terminado.

A atriz Edie McClurg, que no filme interpreta Grace, a intrometida secretária de Rooney, comenta que numa cena que eles tinham que mostrar uma bagunça na sala do diretor da escola, não tinha nada além disso escrito no roteiro, então ela, a atriz, veio com a ideia de fazer como acontece na cena em questão.

Este, inclusive, é um dos pontos em que eu vou contra profissionais que falam para que escritores assistam block busters para aprender a escrever. Para ter alguma ideia até tudo bem, se bem que é preciso ver o que já foi escrito (não filmado) a respeito da ideia, pois senão pode se achar que se está criando algo novo quando, literariamente ao menos, se está apresentando só “mais do mesmo”.

Até porque, como eu coloquei acima, fazer uma cena num livro não é tão simples como colocar o que os personagens estão fazendo num ambiente qualquer, como num roteiro, que existe a figura do diretor como intermediário entre o público e o texto.

Na literatura nada existe entre o texto e a imaginação do leitor, então o escritor deve tomar cuidado para dar a devida ênfase no que realmente é importante numa cena. Por exemplo, do que adianta o autor de fantasia criar uma enorme expectativa fazendo uma descrição de uma espada, e ela não passar de uma simples arma? Ou de um escritor de polícia descrever um beco escuro, ou uma pessoa suspeita, que na realidade não passe de um lugar qualquer ou um transeunte inocente?

Outro ponto, ainda a respeito da secretária é que segundo a atriz o visual da década de 1960, com um cabelo alto com bastante laquê, foi uma ideia dela própria, assim como a cena onde esta enfiava vários lápis que aparece no filme, que nasceu de uma brincadeira do elenco. Todo mundo riu dela colocando os lápis para ver quantos conseguia e o diretor, que também era o roteirista gostou e colocou no filme.

Mais um caso em que isso aconteceu foi com o ator Ben Stein, que interpreta o monótono professor de economia da escola na icônica cena em que ele faz a chamada e repete o nome do protagonista inúmeras vezes. Ele fez isso de improviso fora das filmagens e as pessoas riram tanto que a cena foi adicionada ao filme.

Ou seja, você pode perceber que a história estava longe de estar pronta nos seis dias no qual o roteiro foi considerado “terminado”.

O mesmo, na verdade, acontece também na literatura. Apesar de escrever ser uma tarefa solitária (como fez John Hughes ao escrever o roteiro do filme) antes de sequer ser enviado a uma editora todo original deveria passar nas mãos de outros profissionais do meio, como um leitor crítico, um preparador de texto e um revisor, para deixá-la efetivamente adequada ao mercado ao qual ela se destina.

Finalmente, e eu tenho de dizer que a colocação nada ter a ver com o filme Curtindo a Vida Adoidado o qual eu usei como base aqui, que eu pessoalmente considero excepcional, segue um dito popular atualizado ao tema para que você pense a respeito: ‘Se “uma imagem vale mil palavras”, porque 90% dos filmes são piores do que livros que os basearam?’

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