A universalidade e o mercado nacional

A ideia de falar a respeito deste tema surgiu alguns dias atrás quando, após assistir a um comercial do filme O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares e pesquisar a respeito do livro, que o originou, descobri que a história se passa em Gales, na Inglaterra e o escritor é natural de Miami.

O que tem de errado? Você pode perguntar.

Nada, na verdade. O problema é quando você vê o mesmo mercado, seja na voz dos críticos, dos leitores ou dos editores comentarem o que quase se tornou uma regra, de toda obra nacional de ficção só é aceita quando fala ou acontece no Brasil.

Quer dizer, eu entendo e até concordo com o Tolstoi (para quem não conhece Leon, ou Liev Tolstoi foi um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Anna Karenina e Guerra e Paz) quando ele comenta que “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” ou “Fale de sua aldeia e estará falando do mundo”, mas o mesmo não deveria ser comentado a respeito dos demais “lados” do mercado? Quer dizer o editor não deveria estar publicando “sobre sua aldeia” e o leitor não deveria estar lendo a respeito dela? 

Que regra é essa que um escritor que nasce nos Estados Unidos não precisa falar dos Estados Unidos, mas que um autor brasileiro precisa falar do Brasil?  

Quer dizer, eu até compreendo se realmente houvesse algum empreendedorismo das editoras de tentar vender as obras nacionais no exterior. A maioria dos escritores com quem converso a respeito, reclama que suas editoras, algumas grandes inclusive, nem fazem o marketing e a propaganda para vender a obra no nosso mercado, quanto mais no exterior!

Eu entendo que quando você lê uma história que acontece em seu país ou sua cidade exista uma identificação com o ambiente. Acho, inclusive, isso algo excelente! O problema quando falamos de best-sellers é: quantos leitores são efetivamente do país, ou ainda, da cidade onde a história acontece?

Inclusive, ao mostrar sua visão do exterior a obra não estaria apresentando uma visão relativa de sua aldeia em relação ao mundo?

Eu me recordo, inclusive, que o escritor Belga, Herge, criador do Tintim, escreveu histórias que aconteciam em todo o mundo, não só na Bélgica. 

Ou seja, tudo bem um autor internacional que cresceu na Flórida e reside em Los Angeles (Ransom Riggs) escrever uma história que acontece no País de Gales (O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares), ou um inglês (Neil Gaiman) escrever uma que acontece nos Estados Unidos (Deuses Americanos), mas não um brasileiro cuja obra aconteça nos EUA ou na Europa?

Agora só falta dizerem que uma autora inglesa como J.K. Rowling não pode citar a cultura dos nativo-americanos porque isso seria “apropriação cultural”.

Ou seja, ao invés de atrapalhar a liberdade e a criatividade dos escritores, vamos sim buscar ajudá-los, ler seus livros, exigindo sim boas histórias de qualidade, pois só assim criaremos um mercado literário/editorial brasileiro sólido e efetivo.

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