Semana passada eu recebi uma mensagem com uma dúvida de um escritor a respeito Ponto de Vista e gostaria de falar a respeito.
Além de Ponto de Vista, as dúvidas dele eram se era melhor a escrever em primeira, segunda ou terceira pessoa, como fazer para ganhar a empatia do leitor, a importância da estruturação da trama para manter o leitor curioso, assim como ferramentas como corte de cena e sequência.
Na mensagem já deu para ver o quão no início ele estava, pois comentava que quem busca literatura de entretenimento não está ligado em técnicas literárias ou se algum aspecto da história é ou não clichê, e que se a pessoa busca “alta literatura”, ela deveria ler os clássicos.
O interessante é que, na verdade, segundo o que os críticos colocam, é exatamente o inverso. Todas essas ferramentas, cujo objetivo é cativar o leitor, estão ou estariam presentes em obras voltadas às massas, cuja leitura é focada no entretenimento e não em grandes questões filosóficas. Ou seja, na “baixa” ou “subliteratura”, e não na “alta literatura”.
É como, na verdade, se qualquer literatura que agradasse as massas, e que, portanto, vendesse, fosse necessariamente “ruim”, e as obras que não se importam em vender, trabalhando aspectos psicológicos, sociológicos ou históricos, fazendo o leitor se questionar a respeito de sua realidade, fossem “alta literatura”.
Como se não fosse possível escrever para as massas, deixando questões subliminares na trama que os leitores preparados entenderão
O interessante é que o mesmo acontece com a Fantasia. Apesar de existirem inúmeros subgêneros que normalmente se interpenetram, uma definição que normalmente confunde as pessoas é a da “Alta” e “Baixa Fantasia” (High and Low Fantasy).
Normalmente as pessoas acham que a “alta Fantasia” é, pela qualificação de “alta”, mais adulta do que a “baixa fantasia”, que seria mais infanto-juvenil.
Nada mais errado! É exatamente o oposto. A “alta fantasia” (High fantasy) tem histórias com grandes aventuras épicas e muita magia, e normalmente são bem maniqueístas (bem contra o mal), sendo considerada pelos críticos como “baixa literatura”, enquanto a “baixa fantasia” (Low fantasy), que possui menos elementos estereotipados da fantasia épica, com histórias e personagens mais reais, e quando existe a presença do fantástico, ela é explicada com base na ciência, sem dar espaço ao misticismo ou ao exagero, ou seja, bem mais adulta, ou “alta literatura”.
E claro que isso não quer dizer que não se possa fazer uma High Fantasy, cheia de personagens épicos, criaturas mágicas e misticismo, e mesmo assim manter um pé na realidade, fazendo os personagens mais humanos, com fraquezas, crises éticas e morais.
Foi daí que, inclusive, surgiram muitos dos anti-heróis dos quais gostamos tanto, como Han Solo e John Constantine.
Inclusive, estes dois exemplos me lembraram de três casos que servem de exemplo aqui:
– Em 1961 os membros do júri do Nobel esnobaram J.R.R. Tolkien, cuja obra recentemente foi considerar a melhor do século XX.
– Após a história em quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman, vencer o World Fantasy Award 1991, no ano seguinte o regulamento do prêmio foi alterado para impedir a sua “contaminação” pelos quadrinhos, considerados pelos críticos como uma “forma artística inferior”.
– Da mesma maneira, vários escritores tiveram uma crise quando história em quadrinhos Maus, de Art Spielgman, venceu o Prêmio Pulitzer e foi indicada ao National Book Critics Circle Award.
Na realidade, parafraseando o que Oscar Wilde colocou no prefacio de seu O retrato de Dorian Gray: “Não existe livro moral ou amoral. Os livros são bem ou mal escritos. E isso é tudo.”
Ou seja, não existe alta ou baixa literatura, ou a literatura culta e a para as massas, mas com ou sem qualidade, independente do gênero, do público alvo, do entretenimento que proporcionam e de o quanto vendem.
O ponto é que, independente do que o escritor quiser escrever, alta ou baixa literatura, se ele busca publicar e vender deve não só aprender, mas dominar as ferramentas que tem como objetivo manter o leitor curioso em relação ao universo apresentado, à trama, aos personagens que estão vivendo a história.