Eu sei que já comentei a respeito mais de uma vez, porém, como não só uma, mas duas pessoas me perguntaram a respeito esta semana, eu cheguei a conclusão de que o assunto é mais sensível do que originalmente se pensa, e que mesmo escritores sabem pouco sobre o assunto. Então, vamos lá!
Como eu já expliquei, ghost writer é um profissional que escreve discursos, livros ou ensaios creditados a outra pessoa. Sujeira? Trapaça?
NÃO! Inclusive, mais comum que você pode imaginar.
Exemplos nas livrarias existem aos montes. A maioria das autobiografias é escrita por ghost writers. Afinal, não é porque a pessoa é famosa, ou porque tem uma vida interessante, que ela sabe escrever de modo a chamar atenção do público (ou escrever bem o bastante para que se publique)
De políticos, como Fidel Castro, Hillary e Bill Clinton, Mussolini, Barack Obama, Ronald Reagan, John Kennedy e Leon Trotsky, passando por atores, como Hulk Hogan, Jackie Chan e Bill Cosby, e chegando a músicos, como Johnny Cash e Ozzi Osborn, praticamente todas as memórias foram na realidade colocadas no papel por um escritor.
O mesmo se dá com livros de não ficção. O fato de um profissional ser um especialista em sua área não quer dizer que ele conhece a estrutura necessária para escrever um livro. Como profissional que é, a pessoa pode aprender, pesquisar, descobrir?
Evidente que sim! Mas para isso ela estaria gastando tempo que poderia estar aproveitando fazendo coisas para as quais já tem as habilidades. Especialmente porque existe no mercado a figura do ghost writer, cuja função é exatamente ser um escritor profissional e saber esses meandros do desenvolvimento do livro, de modo a facilitar a vida de quem está querendo lançar um livro sobre sua área, mas não sabe como fazer.
Se você está se questionando se isso também acontece aqui no Brasil, fique sabendo que a maioria dos sucessos editoriais de blogueiros, youtubers, influenciadores, tendência que surgiu já faz um bom tempo, ainda com a Bruna Surfistinhas, passaram, como inclusive, aconteceu no caso dela, foram escritos por ghost writers.
Muitas vezes, inclusive, a ideia é da editora, que não só fala com a pessoa, como já oferece o serviço do ghost writer, pois sabe que a pessoa muitas vezes nem pensou ou tempo o tempo e o know-how para escrever o livro.
Ok. – você deve estar pensando – mas e na literatura, existem casos famosos de ghostwriting?
É evidente que sim!
Na literatura, um exemplo disso são as grandes séries. Quando os editores têm uma propriedade quente em suas mãos, muitas vezes eles ficam interessados por mais tempo do que o autor original (ou este não consegue escrever com a velocidade que o mercado demanda), daí entra o ghost writer.
Um exemplo clássico disso é a série de livros do 007.
Ian Fleming até conseguiu manter-se escrevendo pelo menos as primeiras dez ou quinze obras do emblemático James Bond, mesmo assim, muito antes de sua morte, quando os créditos passaram aos antes ghost writers, já fazia tempo que eram eles que escreviam.
Um dos primeiros, segundo pesquisas, foi O Homem com a Pistola de Ouro, escrito por Kingsley Amis.
Outros exemplos são a série Tales of Conan, de Robert E. Howard e Splinter Cell, de Tom Clancy e Goosebumps, de RL Stine, estas duas últimas com muitos livros escritos por ghost writers sob a supervisão de seus criadores.
Um exemplo que pouca gente sabe a respeito é que “O Diário de Anne Frank” na verdade não é só dela. Seu pai, Otto Frank, fez o papel de ghost writer, pegando o diário original, assim como vários cadernos e folhas soltas cheias de escritos de Anne e reescreveu tudo num volume mais conciso. E se o nome dele não consta na obra é porque, como acontece com a maioria dos ghost writers (pelo menos os que trabalham com memórias) apesar das palavras tecnicamente serem suas, a essência do livro é o coração e a alma de sua filha.
Agora, um caso inusitado é o da série policial Susikoskii de Tuula Sariola. Recentemente Mauri Sariola, o viúvo da famosa romancista finlandesa, admitiu que ela não escreveu uma só palavra de seus dezesseis livros. Cada um deles foi escrito por Ritva Sarkola, um amigo que, apesar de gostar de escrever, não buscava sucesso. Assim, como Sariola tinha um sobrenome famoso, eles usaram isso para conseguir um contrato de edição… Apesar de que este não é exatamente um caso de ghost writting efetivamente falando.
Inclusive, reza a lenda que mesmo no meio literário nacional, alguns dos autores que estouraram nos últimos anos não são os únicos escritores de seus livros. Como eu já falei acima, seja por não conseguirem escrever com a velocidade que o mercado demanda, seja por não possuírem a maturidade que as histórias pedem, as editoras terminaram passando suas obras pelas mãos de ghost writers.
Quem? Meus lábios (e meus dedos) estão selados! Mesmo assim, se sua ideia é se tornar um escritor de ficção profissional, eu diria que antes de procurar um ghost writer, o melhor é você aprender as técnicas e escrever suas próprias obras.