Os dois lados da moeda – Parte 3 – um estudo de caso!

Já faz algum tempo, mas eu estava relendo algumas matérias sobre a FLIP que criticava os escritores brasileiros e, apesar de ter de concordar com diversos deles, como por exemplo:

– A falta de profissionalização (a maioria dos escritores efetivamente não está pronta. Não é a toa que 95% dos originais são descartados pelas editoras);

– A inconstância na criação (não conseguem lançar um livro a cada um ou dois anos, como esperaria o mercado);

– A falta de noção de sua importância na divulgação e marketing de seu próprio livro (normalmente ele acha que sua função é só escrever).

Eu também tenho que considerar o outro lado da moeda:

– A falta de empreendedorismo das editoras (Apesar de apostarem no projeto, as editoras não fazem divulgação, publicidade ou marketing dos livros nacionais além do que fazem com seu catálogo);

 A falta dos livros nas livrarias (a maioria das pessoas que vai à livraria, mesmo quando busca algo, está aberto a descobrir novidades. Se o livro de um autor pouco conhecido não está lá. Ele nunca era descoberto.)

– A inexistência de um plano de “carreira” para o autor (No exterior, normalmente a editora dá um adiantamento sobre os direitos autorais ao autor, para que ele consiga escrever seu próximo livro co mais facilidade. Sem isso, como se pode esperar que ele consiga, muitas vezes trabalhando e tendo de passar parte de seu tempo livro com a família, se focar em escrever?)

O interessante é que normalmente se analisa um dos lados se ignora o outro, como se com isso o resultado fosse mais válido, e não o inverso, como normalmente acontece. Um exemplo disso pôde ser visto no sucesso da trilogia sobre orixás ‘Deuses de Dois Mundos’ de PJ Pereira, de 2018. A trilogia de fantasia, baseada na mitologia africana trazida ao Brasil pelos escravos, foi tão bem que na época figurou durante quase todo primeiro semestre na lista dos dez livros de ficção mais vendidos no primeiro semestre daquele ano.

E eu me recordo que na época mesmo saiu um artigo na Veja comentando a respeito, como você ainda pode ver no link:

https://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/brasileiro-desafia-best-sellers-americanos-com-serie-sobre-orixas

Tirando o ufanismo do início do texto que, com colocações como “desafia best-sellers americanos” ou “conseguiu derrubar a hegemonia dos estrangeiros”, parece esquecer que além de não haver competição real, pois são as mesmas editoras nacionais que compram e colocam a venda estes best-sellers estrangeiros, ele é bem interessante, mostrando que, quando escritor e editora trabalham juntos, se pode atingir o sonho que é chegar à lista dos mais vendidos.

Vamos ver como?

Primeiro, o autor, apesar de haver se aventurado na literatura há pouco, está longe de ser um desconhecido. Com especialização em marketing, o autor não só é um publicitário bastante conhecido, com um Emmy e quatro Grand Prix do Festival de Cannes no currículo, como também foi um dos fundadores da AgênciaClick, a primeira especializada em marketing na internet do Brasil.

Depois, e falamos da importância deste aspecto sempre! Percebemos que ele fez uma pesquisa bastante profunda sobre o tema antes de começar a escrever.

Finalmente, percebemos que houve um cuidado da editora com a publicidade e o marketing do projeto, que não só antes de o primeiro livro ser publicado, organizou uma reunião entre o autor e alguns donos de redes de livrarias. A maioria das grandes editoras não faz isso para os autores nacionais! A não ser, é claro, que o mesmo já seja extremamente conhecido.

O autor, por sua vez, além de fazer o marketing dele nas redes sociais, usou seus contatos para vender os direitos para uma produtora multimídia, abrindo com isso a possibilidade de seu livro virar um filme, série e uma graphic novel. E se hoje sabemos que nada disso aconteceu, isso não impediu que a ação tenha ajudado na venda do livro na época

Ou seja, apesar de, confirmando o que eu já venho dizendo há algum tempo sobre a falta de empreendedorismo das editoras e livrarias nacionais, nas palavras do próprio PJ Pereira: “A indústria do entretenimento é uma das mais medrosas que existem. Muitos livreiros também dão mais destaque para os livros estrangeiros.”, Quando vemos profissionalismo em todos os aspectos do livro, de ambos os lados da equação e com ambos trabalhando em grupo, o sucesso não é um sonho tão distante quanto parece.

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